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Um estudo inédito e revelador, divulgado nesta terça-feira, 3 de março de 2026, pelo Instituto Esfera em Brasília, lança luz sobre a premente necessidade de formulação e implementação de políticas públicas específicas para atenuar os profundos impactos da menopausa na vida das mulheres brasileiras. A pesquisa, com uma abordagem abrangente, solicita atenção especial para os grupos mais vulneráveis da sociedade, como mulheres negras e aquelas em situação de vulnerabilidade socioeconômica, cujas experiências com a menopausa são frequentemente mais severas e desassistidas.

Em uma entrevista concedida à Agência Brasil, a pesquisadora Clarita Costa Maia, uma das mentes por trás deste estudo crucial, detalhou a complexidade da questão. Maia enfatizou que as mulheres que já enfrentam condições de vulnerabilidade no país – notadamente as mulheres negras e as que residem em comunidades historicamente desassistidas – são as que mais sofrem com as repercussões da menopausa, tanto no âmbito da saúde física e mental quanto em sua inserção e permanência no mercado de trabalho. A pesquisadora ressaltou que, para esses grupos, a menopausa não é apenas uma fase biológica, mas um período que agrava desigualdades existentes.

“O que constatamos é que a menopausa tem um componente biológico que atinge mais as mulheres negras e há o cruzamento de vulnerabilidades. São mulheres que sentem a menopausa com mais peso, biologicamente e socialmente falando”, explicou Clarita Costa Maia, apontando para a intersecção de fatores que amplificam o sofrimento.

Impactos Profissionais e a Fragilidade no Mercado de Trabalho

Essa camada adicional de vulnerabilidade posiciona essas mulheres em um patamar de desvantagem ainda maior em comparação com outros estratos sociais. Maia sublinhou que, muitas vezes, “ela é, em regra, o arrimo de família e líder familiar. São mulheres que ficam numa posição muito frágil no mercado de trabalho”, destacando como a menopausa pode comprometer a estabilidade financeira e a subsistência de todo um núcleo familiar que depende delas.

Os sintomas associados à menopausa, que abrangem desde manifestações físicas como os conhecidos fogachos, alterações de sono e fadiga crônica, até desafios psicológicos como irritabilidade, ansiedade e dificuldade de concentração, quando não são devidamente tratados e gerenciados, podem levar a uma insustentabilidade na relação profissional. Essa dificuldade em manter o ritmo e a qualidade no ambiente de trabalho tem um efeito cascata que impacta não apenas a mulher individualmente, mas toda a sua família, comprometendo a segurança econômica e o bem-estar coletivo.

Diante desse cenário, o estudo reforça a tese de que, no contexto brasileiro, as políticas públicas voltadas para o tratamento e suporte às mulheres na menopausa devem ser encaradas como um investimento no cuidado e na sustentação de todo o núcleo familiar, reconhecendo o papel central da mulher na estrutura social e econômica.

Consequências na Saúde Mental e Fenômeno da Menopausa Precoce

A pesquisadora Clarita Costa Maia, cuja formação é na área do direito e que colaborou no estudo com a expertise da médica Fabiane Berta de Sousa, complementa que a negligência no tratamento dos sintomas da menopausa pode desencadear sérias repercussões na saúde mental das mulheres. A transição menopausal é um período de intensas mudanças hormonais que, sem o devido acompanhamento, podem exacerbar ou originar problemas de saúde mental.

“Aumentam significativamente as chances de desenvolvimento de Alzheimer, de depressão e diversas outras consequências relacionais advindas disso”, detalhou Maia, alertando para os riscos de longo prazo e a deterioração da qualidade de vida.

Além disso, o estudo aponta para um fenômeno preocupante: a menopausa precoce, que se manifesta antes dos 40 anos. “Nosso modo de vida está aumentando a menopausa e a andropausa precoce”, afirmou a pesquisadora, sugerindo que fatores como estresse, dieta, estilo de vida e exposição ambiental podem estar contribuindo para essa antecipação. Em um país com uma população em envelhecimento progressivo, o documento ressalta que é imperativo que as redes públicas de saúde intensifiquem sua atenção e preparo para lidar com as demandas crescentes dessa fase da vida feminina.

“São fases complicadas, de altos e baixos emocionais. Pode haver rupturas em nível pessoal das quais a pessoa precisa se recuperar com o tempo e não está entendendo o que ocorre consigo mesma”, descreveu Maia, evidenciando a confusão e o isolamento que muitas mulheres podem sentir durante a menopausa.

O afastamento do trabalho, muitas vezes imposto pela gravidade dos sintomas não gerenciados, gera reflexos sistêmicos, como o aumento da pressão sobre o sistema previdenciário. “Ao invés de estarmos com trabalhadoras na sua melhor fase intelectual, surgem mais problemas previdenciários e sociais”, lamenta a pesquisadora, destacando a perda de produtividade e os custos sociais que poderiam ser evitados com intervenções adequadas.

A Urgência de um Mapeamento Nacional Abrangente

No cenário atual, o estudo conclui que a medida mais eficaz e imediata para o Brasil seria a realização de um mapeamento detalhado e abrangente sobre a menopausa. Este levantamento seria fundamental para construir uma compreensão sólida da realidade nacional, identificando particularidades regionais, disparidades no acesso a serviços de saúde e a real dimensão dos impactos que esta fase da vida impõe às mulheres em diferentes contextos sociais e geográficos.

O documento é taxativo ao afirmar que “A ausência de política pública nacional estruturada para a menopausa não é neutra. Produz efeitos concretos sobre a saúde, a economia e a cidadania de milhões de mulheres, com custos que se projetam sobre o sistema de saúde, a Previdência Social e a produtividade nacional”. Esta declaração sublinha que a inação tem um preço elevado, tanto em sofrimento humano quanto em encargos financeiros e sociais para o Estado.

Dados internacionais corroboram esta perspectiva, demonstrando que os custos associados à falta de atenção à menopausa em termos de saúde pública e perda de produtividade são substanciais, reforçando a urgência de uma abordagem proativa e planejada no Brasil.

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