Historicamente reconhecido como um inquestionável bastião eleitoral do Partido dos Trabalhadores (PT) por mais de duas décadas, o Nordeste brasileiro emerge agora como um ponto de intensa preocupação e um sinal de alerta estridente para a pré-campanha de reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Levantamentos recentes, conduzidos por institutos de pesquisa de renome, apontam para uma tendência preocupante de declínio na aprovação do governo federal na região, acompanhada por uma notável redução da margem de vantagem de Lula sobre seu potencial adversário, Flávio Bolsonaro (PL), em um cenário hipotético. Essa diminuição da força política petista na região se manifesta em um contexto complexo, marcado por profundas divisões no interior da base aliada e pela desvantagem de candidatos filiados ao partido nas disputas por governos estaduais, indicando um cenário eleitoral muito menos favorável do que o observado em pleitos anteriores.
Desde as eleições de 2006, a região Nordeste tem sido um pilar fundamental para as vitórias presidenciais do PT. Em todas as disputas de segundo turno que envolveram candidatos petistas, seja o próprio Lula, Dilma Rousseff ou Fernando Haddad, os percentuais de votos válidos obtidos na região superaram consistentemente a marca de 69% entre o eleitorado nordestino. O auge desse desempenho esmagador foi alcançado pelo próprio Lula em 2006, quando angariou impressionantes 77% dos votos válidos contra seu então adversário e hoje vice-presidente, Geraldo Alckmin, que concorria pelo PSDB naquela ocasião histórica.
Na etapa derradeira do pleito de 2022, a força eleitoral do presidente Lula no Nordeste foi decisiva para sua vitória nacional. Ele superou Jair Bolsonaro com uma diferença expressiva, obtendo 69,34% dos votos contra 30,66% do então presidente na região. A colossal vantagem de 12,6 milhões de votos conquistada entre os nordestinos revelou-se crucial para compensar as derrotas sofridas em outras regiões estratégicas do país, como o Sul, o Centro-Oeste, o Sudeste e o Norte. Graças a esse apoio massivo, o petista conseguiu um cômputo geral de 2,1 milhões de votos a mais que o candidato do PL em todo o território nacional, selando sua eleição.
A grande incógnita que paira agora sobre a estratégia petista é se esse retrospecto de vasta vantagem no Nordeste poderá ser replicado para contrabalançar eventuais reveses no restante do país, especialmente em um cenário de polarização acentuada. Levantamentos recentes do Datafolha ilustram essa preocupação: o presidente Lula oscilou dentro da margem de erro nos últimos meses, passando de 63% das intenções de voto em dezembro para 60% na pesquisa mais recente, divulgada em 11 de abril. Em contrapartida, Flávio Bolsonaro registrou um crescimento notável no mesmo período, saltando de 24% para 32%. A margem de erro para esses dados específicos na região é de quatro pontos percentuais para mais ou para menos, indicando que a aproximação dos dois candidatos é estatisticamente relevante.
Cenário Atual Menos Favorável
O panorama eleitoral que se desenha atualmente para o presidente Lula no Nordeste é consideravelmente menos promissor do que o verificado há quatro anos, quando o embate se dava contra Jair Bolsonaro, pai de Flávio. Em agosto de 2022, por exemplo, as projeções do Datafolha indicavam que o petista detinha um confortável índice de 65% das intenções de voto, em contraste com os 25% do então presidente entre os eleitores nordestinos. Essa diferença marcante sublinha a intensificação do desafio para Lula na região.
Rejeição a Lula Também Cresceu no Nordeste
Ao longo dos últimos anos, a taxa de rejeição ao presidente Lula também experimentou um crescimento no Nordeste, um fenômeno que ecoa as tendências nacionais, embora em patamar inferior. Atualmente, o contingente de nordestinos que afirmam categoricamente que não votariam no petista de jeito nenhum alcança 32%. Embora esse índice seja consideravelmente mais baixo que a média nacional de 48%, é importante notar que em agosto de 2022, a rejeição a Lula na região era de 27%, evidenciando um aumento de cinco pontos percentuais que acende mais um alerta para a campanha.
Ciente da importância estratégica do Nordeste, o presidente Lula tem empreendido esforços significativos para manter sua popularidade em patamares elevados na região. Somente neste ano, ele cumpriu agendas em cidades nordestinas em oito ocasiões distintas, demonstrando um foco claro na manutenção de sua base. Exemplo disso foi a recente visita no início do mês, quando participou da inauguração de um trecho de um quilômetro do metrô de Salvador, capital baiana. Contudo, apesar desses esforços, a avaliação geral do desempenho do petista em seu terceiro mandato sofreu um revés. Dados do Datafolha revelam que a aprovação de Lula na região, que atingiu 53% de ótimo e bom em março de 2023, recuou para 41% atualmente. A margem de erro de quatro pontos percentuais reforça a significância dessa queda.
Publicamente, lideranças do PT mantêm uma postura de otimismo em relação à capacidade de recuperação de Lula no Nordeste até o pleito de outubro. No entanto, em conversas reservadas, essas mesmas lideranças admitem uma crescente preocupação com o desempenho do presidente nas capitais e nas grandes cidades, aquelas com mais de 150 mil habitantes, não apenas no Nordeste, mas em todo o país. Essa apreensão é fundamentada em experiências passadas, como a eleição de 2022, quando, apesar de sua ampla vantagem geral entre os nordestinos, Lula foi derrotado por Bolsonaro em uma das capitais da região: Maceió (AL). Na ocasião, o então presidente obteve 57,18% dos votos, contra 42,82% do petista na capital alagoana, indicando uma vulnerabilidade em centros urbanos.
Pessimismo de Ala do PT
Uma ala do Partido dos Trabalhadores, entretanto, não compartilha do mesmo otimismo. Membros do partido envolvidos na pré-campanha de Fernando Haddad para o governo de São Paulo, por exemplo, projetam uma inevitável perda de desempenho de Lula no Nordeste. Diante dessa perspectiva, a estratégia de Haddad e sua equipe visa a angariar uma margem de pelo menos 2 milhões de votos a mais no estado de São Paulo em comparação com 2022, na tentativa de mitigar uma possível derrota do atual presidente a nível nacional. Na eleição de quatro anos atrás, Lula e Haddad registraram votações próximas entre os eleitores paulistas, assim como o atual governador, Tarcísio de Freitas, e Jair Bolsonaro. Na disputa presidencial, a vantagem do então presidente sobre o petista em São Paulo, o estado mais populoso do país, foi de 2,7 milhões de votos, estabelecendo um desafio considerável para a campanha atual.
Problema Vai Além dos Números em Pesquisas e Atinge Palanques
Além do preocupante sinal de alerta emanado pelos números das pesquisas de intenção de voto, o presidente Lula enfrenta também desafios complexos na construção de seus “palanques” estaduais, as alianças locais que são cruciais para a capilaridade da campanha. Nos dois maiores estados nordestinos governados por petistas, Bahia e Ceará, levantamentos de intenção de voto indicam um cenário de incerteza para os atuais chefes do Executivo, que buscarão a reeleição, refletindo diretamente na força da campanha presidencial.
Na Bahia, um dos mais importantes redutos eleitorais do PT, o atual governador Jerônimo de Freitas tem aparecido atrás de ACM Neto (União Brasil) em pesquisas recentes, o que impõe um desafio considerável à máquina petista. No Ceará, outro estado de grande peso político, uma pesquisa Datafolha divulgada em março revelou que Ciro Gomes (PSDB), na ocasião, detinha 47% das intenções de voto, contra 32% de Elmano de Freitas (PT), com uma margem de erro de três pontos percentuais. Essa diferença expressiva aponta para uma batalha árdua para a reeleição do governador petista.
Diante do cenário de incerteza para Elmano de Freitas no Ceará, o senador Camilo Santana (PT) tomou a decisão estratégica de deixar o Ministério da Educação dentro do prazo legal de desincompatibilização. Essa movimentação, embora Camilo negue ter a intenção de assumir a cabeça da chapa para o governo do estado, é interpretada nos bastidores como uma preparação para uma eventual necessidade de fortalecimento da candidatura governista. Apesar dos números desfavoráveis nas pesquisas para o presidente na região, Camilo Santana mantém um discurso público de otimismo com relação à votação que Lula poderá obter no Nordeste em outubro, afirmando categoricamente: “O desempenho do presidente no Nordeste será melhor ainda do que em 2022”.
A tentativa de solidificar e ampliar as alianças políticas que possam impulsionar o palanque de Lula no Ceará foi, inclusive, citada pelo novo ministro das Relações Institucionais, José Guimarães, como uma das principais motivações para sua escolha para o cargo. Guimarães, que tinha a intenção de disputar uma vaga ao Senado, abriu mão de sua pretensão pessoal em favor de uma estratégia maior do PT, que busca usar a vaga para negociar e atrair apoios cruciais no estado.
As negociações para a composição da chapa ao Senado no Ceará são complexas e envolvem diversos atores. A primeira vaga para o Senado é esperada que fique com o PSB, porém, a definição sobre quem ocupará essa posição ainda está em aberto. Camilo Santana, por exemplo, expressa o desejo de que o senador Cid Gomes (PSB) concorra à reeleição. No entanto, o irmão do ex-ministro e provável candidato da oposição ao governo, Ciro Gomes (PSDB), refuta essa possibilidade e insiste na indicação do deputado federal Júnior Mano (PL). Para complicar o cenário, o MDB, que também faz parte da base governista, tem o ex-presidente do Senado Eunício Oliveira como um possível candidato à Casa, adicionando mais uma camada de negociação a essa intrincada teia de alianças.
Problemas na formação de palanques se estendem também a outros estados estratégicos do Nordeste. No Maranhão, a base de apoio de Lula foi abalada por um racha após o atual governador, Carlos Brandão (PSB), lançar a candidatura de seu sobrinho, Orlando Brandão (MDB). Diante dessa divisão, os petistas do estado se veem em uma encruzilhada: podem lançar a candidatura do vice-governador Felipe Camarão, filiado ao partido, ou optar por apoiar o ex-prefeito de São Luís Eduardo Braide (PSD), complicando a unidade. Em Pernambuco, outro estado de grande eleitorado, a disputa pelo apoio de Lula gera fissuras significativas na base lulista, com tanto o ex-prefeito de Recife, João Campos (PSB), quanto a governadora Raquel Lyra (PSD), que buscará a reeleição, brigando para ter o endosso do presidente, o que fragmenta o apoio ao Planalto na região.
Fonte: O Globo

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