Brasília, DF – Em uma sessão de grande relevância para as investigações sobre o crime organizado no país, a Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) do Crime Organizado, em atuação no Senado Federal, aprovou nesta quarta-feira (11 de março de 2026) um conjunto robusto de mais de 20 requerimentos. As decisões abrangem quebras de sigilos fiscal, bancário e telefônico, solicitações de informações detalhadas e convocações de indivíduos-chave, todos com o objetivo de desarticular o braço financeiro do Primeiro Comando da Capital (PCC) na sofisticada região da Faria Lima, em São Paulo, e investigar as operações do grupo conhecido como “A Turma”, liderado por Daniel Vorcaro, proprietário do Banco Master.
O grupo de comunicação “A Turma” é identificado como um instrumento utilizado por Vorcaro para monitorar e, em alguns casos, intimidar adversários do banqueiro. A atuação deste grupo já esteve no centro de discussões que levaram à decisão de prisão do próprio dono do Banco Master, evidenciando a centralidade de suas operações no escopo da CPI.
No âmbito das investigações que visam expor as conexões financeiras ilícitas, a CPI também determinou a quebra dos sigilos fiscal, bancário e telefônico de Luiz Phillipi Mourão, popularmente conhecido como “Sicário” e apontado como um aliado próximo de Daniel Vorcaro. Mourão foi preso na semana anterior pela Polícia Federal (PF) e, posteriormente, veio a óbito, em circunstâncias que sua defesa apontou como suicídio. A Comissão, demonstrando a profundidade de suas apurações, também formalizou um pedido de informações junto ao Supremo Tribunal Federal (STF) a respeito do caso do “Sicário”.
Outro indivíduo que passa a ser alvo de investigações mais aprofundadas pela CPI é Fabiano Campos Zettel, cunhado de Daniel Vorcaro. Sua convocação para prestar depoimento foi aprovada após a apresentação de requerimentos por parte de senadores membros da comissão. A justificativa para a convocação, apresentada pelo senador Humberto Costa (PT-PE), detalha que investigações realizadas no contexto da Operação Carbono Oculto, conduzida pela Polícia Federal, indicam que Zettel possui ligações financeiras diretas com a Reag Investimentos e o Banco Master. Ambas as instituições foram identificadas pela PF como importantes braços financeiros do PCC na Faria Lima, o centro nevrálgico do mercado financeiro paulistano.
Envolvimento do Banco Central sob Suspeita
A CPI deu um passo significativo ao aprovar a convocação de dois ex-dirigentes do Banco Central (BC): Paulo Sérgio Neves de Souza, ex-diretor de fiscalização, e Bellini Santana, ex-chefe do Departamento de Supervisão Bancária. Ambos foram recentemente afastados de seus cargos, o que intensifica o interesse da comissão em suas atuações.
Ao fundamentar o pedido de convocação destes ex-servidores do Banco Central, o senador Humberto Costa destacou que um relatório emitido pela Polícia Federal sugere que ambos teriam atuado como consultores informais para Daniel Vorcaro. Segundo as apurações, eles teriam facilitado o processo de aquisição do antigo Banco Máxima, posteriormente rebatizado como Banco Master, e também compartilhado informações de caráter sigiloso com o banqueiro. O objetivo seria municiá-lo sobre as operações e fiscalizações em curso por parte do Banco Central, indicando uma possível cooperação para contornar a vigilância regulatória.
Em outra frente de investigação, a CPI promoveu a quebra dos sigilos da empresa Varajo Consultoria. Esta empresa é apontada como ligada a Daniel Vorcaro e teria sido responsável por uma proposta de pagamento a um servidor do Banco Central. O chefe desta companhia, Leonardo Augusto Furtado Palhares, também foi convocado pela CPI para prestar esclarecimentos sobre suas atividades.
O Epicentro da Lavagem de Dinheiro na Faria Lima
A região da Faria Lima, conhecida por abrigar as sedes de importantes instituições financeiras e empresas do mercado de capitais, tornou-se um dos focos centrais das investigações da CPI. Empresários e outros indivíduos investigados por sua suposta associação com esquemas de lavagem de dinheiro do PCC nesta área tiveram seus sigilos bancários, fiscais e telefônicos quebrados pela comissão.
Uma série de requerimentos foram aprovados com o objetivo de acessar dados de investigados que foram apontados pela Operação Carbono Oculto, da Polícia Federal. Esta operação, com suas robustas evidências, desvendou um intrincado esquema de lavagem de dinheiro operado pelo PCC.
Entre os alvos da quebra de sigilos está Roberto Augusto Leme da Silva, conhecido como “Beto Louco”. Ele é considerado pela PF como o responsável pela gestão de distribuidoras de combustíveis que teriam sido utilizadas para lavar dinheiro em benefício da organização criminosa paulista. O esquema, que movimentou a impressionante cifra de R$ 52 bilhões entre os anos de 2020 e 2024, operava através de uma extensa rede de postos de combustíveis e fundos de investimento. O objetivo era ocultar a origem ilícita dos recursos, demonstrando uma atuação de alta sofisticação no mercado financeiro, com sua principal base de operações localizada na Avenida Faria Lima, em São Paulo. Esta estratégia, conforme argumentou o senador Humberto Costa, revela uma operação criminosa com profunda inserção no ambiente financeiro legal.
Adicionalmente, Mohamad Hussein Mourad, outro indivíduo considerado um dos principais operadores financeiros investigados, também teve seus sigilos quebrados pela Comissão, ampliando o cerco sobre os envolvidos nos complexos esquemas financeiros sob apuração.

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