Em entrevista, Roberto Pes, CEO da Brazilian Biocombustíveis, analisa os obstáculos químicos da mistura entre etanol e diesel, os limites da rota tradicional do biodiesel e o potencial de novas soluções renováveis para transporte pesado, geração de energia e combustíveis marítimos
O Brasil é uma potência em bioenergia, mas ainda enfrenta um desafio relevante quando o assunto é ampliar a presença de combustíveis renováveis no ciclo diesel. Ao contrário do que acontece com a gasolina, o etanol não pode ser misturado diretamente ao diesel de forma simples e estável. A razão está na química: o etanol é polar e higroscópico, enquanto o diesel é predominantemente apolar, o que favorece instabilidade, absorção de água e separação de fases, especialmente sob variações de temperatura.

O tema vai além do laboratório. A dificuldade de incorporar renováveis ao diesel tem impacto direto em setores como transporte de carga, máquinas pesadas, geração estacionária e navegação. No caso dos combustíveis marítimos, como bunker e outras correntes pesadas de alta emissão, qualquer avanço na introdução de componentes renováveis pode representar um ganho ambiental importante.Nesse cenário, o biodiesel teve e continua tendo papel central. Mas o aumento da mistura no diesel também encontra limites técnicos e operacionais. A rota convencional do biodiesel utiliza basicamente óleos e gorduras, com uso predominante de metanol no processo produtivo, e isso faz com que a discussão sobre o futuro dos renováveis no ciclo diesel continue aberta.

Bem-vindo, Roberto Pes. Obrigado por conversar conosco sobre um tema tão importante para a transição energética brasileira.
Roberto Pes: Obrigado pelo convite. Acredito que seja um debate técnico, mas também estratégico para o país.
Para começar pelo ponto mais básico: por que o etanol não entra no diesel com a mesma facilidade com que entra na gasolina?

Roberto Pes: Porque estamos falando de substâncias com comportamentos físico-químicos diferentes. O etanol é polar e o diesel é majoritariamente apolar. Isso dificulta a miscibilidade natural entre os dois. Além disso, o etanol é higroscópico, ou seja, absorve água com facilidade, e essa água piora ainda mais a estabilidade da mistura. Quando entram as variações de temperatura, o risco de separação de fases aumenta bastante.
Então o desafio não está apenas em misturar, mas em manter essa mistura estável e funcional?
Roberto Pes: Diria os dois. Não basta que a mistura pareça homogênea no início. Ela precisa permanecer estável no armazenamento, no transporte e no uso real. E mais: precisa funcionar adequadamente no motor diesel. Isso envolve combustão, ignição por compressão, lubricidade, segurança operacional e desempenho. É um tema de engenharia de combustível, não apenas de simples mistura física.
O biodiesel não resolveu essa questão dos renováveis no diesel?
Roberto Pes: O biodiesel resolveu isso apenas em parte. O biodiesel foi um avanço muito importante, mas não esgota sozinho a agenda da descarbonização do diesel. A rota tradicional do biodiesel trabalha principalmente com óleos vegetais, gorduras animais e, no contexto industrial mais difundido, com uso predominante de metanol no processo de transesterificação. Trata-se de uma tecnologia consolidada, mas que não resolve, por si só, o desafio da introdução direta e estável do etanol no ciclo diesel. O biodiesel também encontra limites quando se discute aumento contínuo de mistura, principalmente por desafios de estabilidade oxidativa em determinadas condições, além de questões logísticas e de adaptação a diferentes aplicações. Isso mostra que o país precisa considerar rotas complementares.

Quando o senhor menciona rotas complementares, de que tipo de mudança estamos falando?
Roberto Pes: Estamos falando de uma mudança de lógica. Em vez de depender exclusivamente do modelo tradicional do biodiesel, surgem abordagens que buscam integrar óleo vegetal e etanol no ciclo diesel por meio de tecnologias alternativas que vêm avançando em testes de desempenho e validações técnicas. Tecnologias que representam uma ruptura relevante em relação às rotas convencionais, porque ampliam o uso potencial de matérias-primas renováveis e abrem uma nova frente tecnológica para o setor.
Essa discussão interessa apenas ao transporte rodoviário ou também pode alcançar outros segmentos?
Roberto Pes: Pode alcançar muitos outros segmentos. Geração estacionária, máquinas pesadas, operações industriais e, de forma muito importante, o setor marítimo. Combustíveis como bunker têm alta intensidade de emissões. Se houver caminhos tecnicamente seguros para incorporar conteúdo renovável nessas correntes, o impacto ambiental pode ser muito relevante. É um debate que vai muito além do caminhão.
Na sua visão, o Brasil tem condições reais de liderar esse movimento?
Roberto Pes: O Brasil reúne condições muito favoráveis para isso. O país combina produção de etanol em escala, base agrícola forte, experiência acumulada em biocombustíveis e uma necessidade concreta de reduzir o uso de combustíveis fósseis em setores difíceis de eletrificar. Poucos países reúnem esses fatores ao mesmo tempo. O Brasil tem condições de ser protagonista, desde que trate essa pauta com visão de longo prazo.

E o que falta para essa agenda ganhar escala real?
Roberto Pes: Falta convergência entre ciência, indústria, regulação e política energética. O tema precisa ser tratado como uma agenda estratégica de país. Não é apenas uma discussão de laboratório, nem apenas uma oportunidade de mercado. É uma discussão sobre sustentabilidade, soberania energética e competitividade industrial.A introdução do etanol no ciclo diesel continua sendo um desafio técnico complexo, mas cada vez mais relevante para a transição energética. Em um momento em que o país busca reduzir emissões sem comprometer setores essenciais da economia, o debate sobre novas rotas renováveis tende a ganhar força.
O biodiesel seguirá como peça importante dessa trajetória. Mas a pressão por maior descarbonização, somada aos limites percebidos em certas aplicações, tende a manter aberto o espaço para novas abordagens tecnológicas, inclusive com potencial de aplicação em combustíveis marítimos e outras correntes pesadas de alta emissão.
Para o Brasil, a questão de fundo é clara: transformar sua vocação em bioenergia não apenas em produção agrícola, mas também em inovação industrial, energética e tecnológica de longo prazo.

Entrevista por: Rafael Quintana
Deixe um comentário