A Secretaria de Estado da Saúde Pública do Rio Grande do Norte (Sesap) divulgou, na manhã desta sexta-feira, 24 de janeiro de 2026, um importante comunicado à população potiguar, revelando a investigação de cinco novos surtos de ciguatera em diversas localidades do estado. As ocorrências, que ainda se encontram em meticulosa fase de investigação epidemiológica, impactaram um total de 36 indivíduos, que manifestaram sintomas após o consumo de peixes contaminados. Detalhes específicos sobre as datas exatas e os municípios afetados por esses episódios mais recentes não foram tornados públicos até o momento, visando a não prejudicar as apurações em andamento.
A ciguatera é uma complexa intoxicação alimentar, pouco conhecida do público em geral, que se manifesta após a ingestão de peixes que acumularam toxinas potentes. Essas toxinas são produzidas por microalgas microscópicas, os dinoflagelados – notadamente espécies do gênero Gambierdiscus toxicus – que proliferam em recifes de corais tropicais e subtropicais, áreas ricas em biodiversidade marinha. Os sintomas da ciguatera são vastos e podem ser debilitantes, abrangendo desde distúrbios gastrointestinais leves, como náuseas, vômitos e diarreia, até severas alterações neurológicas, incluindo inversão da sensação térmica (o que é quente parece frio e vice-versa), dores musculares intensas e formigamentos persistentes. Um dos aspectos mais preocupantes da ciguatera é a inexistência de um tratamento específico, tornando o manejo dos sintomas e o suporte clínico as únicas abordagens disponíveis.
De acordo com os protocolos das autoridades sanitárias e de vigilância em saúde, um evento é classificado como surto quando duas ou mais pessoas, residentes de uma mesma localidade ou que compartilharam a mesma fonte de exposição, apresentam sintomas similares após um idêntico episódio de possível contaminação alimentar. A Sesap ressalta que já neste mês de janeiro, antes da confirmação desses cinco surtos, um caso isolado de ciguatera já havia sido objeto de investigação no município litorâneo de Touros, acendendo o sinal de alerta para a presença da toxina na região.
Monitoramento e Histórico de Ciguatera no RN
A Sesap enfatiza que o primeiro registro documentado de um surto de ciguatera no Rio Grande do Norte ocorreu em 2022. Desde então, um levantamento minucioso revelou um total de 77 casos notificados, incluindo tanto surtos confirmados por exames laboratoriais quanto episódios que ainda permanecem sob rigorosa apuração. Este histórico recente, que demonstra uma frequência crescente de ocorrências, serve como um indicativo claro da circulação persistente da ciguatoxina nas águas costeiras do estado, representando um desafio contínuo para a saúde pública e a segurança alimentar.
A análise dos dados históricos revela que, entre os meses de fevereiro e maio do ano passado, foram notificados três surtos distintos, os quais afetaram um grupo de 18 indivíduos. Estes casos foram associados, principalmente, ao consumo de espécies de peixes como arabaiana, bicuda e dourado. O episódio inaugural, registrado em 2022, resultou na intoxicação de dez membros de uma mesma família após a ingestão de um peixe da espécie bicuda, popularmente conhecida como barracuda. Desde então, houve relatos e investigações envolvendo uma gama diversificada de espécies marinhas, incluindo bicuda, cioba, guarajuba, arabaiana e dourado. Importante destacar que algumas dessas ocorrências tiveram confirmações laboratoriais da presença da ciguatoxina caribenha em amostras de peixe ou de pacientes, validando a causa da intoxicação.
(Para mais informações sobre um caso anterior, leia também: Sesap investiga quatro suspeitas de intoxicação por ciguatera após consumo de peixe em Touros)
Recomendação Crucial e Medidas Preventivas
Diante do panorama preocupante e das novas investigações em curso, a Sesap emitiu uma recomendação oficial e urgente para que a população evite o consumo do peixe da espécie arabaiana. Esta medida preventiva visa proteger os cidadãos de potenciais riscos à saúde, enquanto as causas e a extensão da contaminação são plenamente elucidadas.
“A recomendação de não consumo da arabaiana se deve à característica dessa espécie de acumular a toxina ao longo do tempo em seu organismo, tornando-a um vetor de risco mais elevado”, explicou a coordenadora de Vigilância em Saúde do Rio Grande do Norte, Diana Rêgo, em entrevista. A especialista também reforçou a importância do monitoramento contínuo das áreas litorâneas do estado, que é fundamental para identificar a presença de microalgas tóxicas e proteger a cadeia alimentar marinha.
Para fortalecer a capacidade de resposta e a disseminação de informações cruciais, a secretaria informou que emitiu uma nota técnica abrangente. Este documento oficial é destinado a orientar uma vasta gama de stakeholders, incluindo profissionais de saúde (médicos, enfermeiros), pescadores (que estão na linha de frente da cadeia produtiva), comerciantes de pescados, serviços de alimentação (restaurantes, hotéis) e, de forma vital, a população em geral. O objetivo principal da nota é fornecer diretrizes claras sobre as melhores práticas de prevenção e os procedimentos corretos para a identificação e notificação de possíveis casos de ciguatera.
Entendendo a Intoxicação: O Ciclo da Ciguatera
A cadeia de contaminação por ciguatoxinas é um exemplo complexo de como as interações no ecossistema marinho podem impactar a saúde humana. As ciguatoxinas, como mencionado, são inicialmente produzidas por microalgas fitoplanctônicas invisíveis a olho nu, que se desenvolvem sobre recifes de corais ou algas maiores. Peixes herbívoros de menor porte se alimentam dessas microalgas e, ao fazê-lo, ingerem e começam a acumular as toxinas em seus tecidos. Subsequentemente, peixes maiores e carnívoros se alimentam desses herbívoros contaminados, e o processo de bioacumulação e biomagnificação intensifica-se, resultando em concentrações ainda mais elevadas das toxinas em predadores de topo da cadeia alimentar. Ao consumir esses pescados contaminados, o ser humano é exposto a doses potencialmente perigosas de ciguatoxinas, desenvolvendo a intoxicação.
É crucial destacar a natureza insidiosa das ciguatoxinas, que as torna particularmente perigosas. Elas são incolores, inodoras e insípidas, o que significa que não alteram o sabor, o cheiro ou a aparência do peixe, tornando impossível para o consumidor identificá-las pelos sentidos. Além disso, as toxinas são extremamente estáveis e resistentes a métodos comuns de preparação de alimentos; elas não são eliminadas por cozimento em altas temperaturas, congelamento prolongado, salga ou defumação. As partes do peixe que tipicamente contêm as maiores concentrações de ciguatoxinas são a cabeça, as vísceras (órgãos internos) e as ovas, áreas que frequentemente são descartadas ou consumidas de forma menos comum, mas que representam um risco elevado.
Principais Sintomas da Ciguatera
Os sinais e sintomas da intoxicação por ciguatera geralmente começam a se manifestar em um período que varia de 30 minutos a 24 horas após o consumo do peixe contaminado. A apresentação clínica é variada e pode incluir uma série de distúrbios gastrointestinais, neurológicos e cardiovasculares. Entre os mais comuns e preocupantes estão:
• Dores abdominais intensas;
• Náuseas persistentes;
• Vômitos recorrentes;
• Diarreia severa;
• Cefaleia (dor de cabeça) latejante;
• Cãibras musculares dolorosas;
• Coceira intensa e generalizada (prurido), frequentemente piorada pelo contato com água fria;
• Parestesias (sensações anormais como formigamento ou queimação) nas extremidades e ao redor da boca;
• Disestesia térmica (inversão da sensação de temperatura, onde objetos frios parecem quentes e vice-versa), um sintoma característico e bastante perturbador.

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