Foto: Reprodução

Parceria entre o Lar dos Pancinhas e uma equipe criativa do Ceará, formada por Evandro Lima (Sala nas Nuvens), Roberto Kennedy, Bill Queiroga e Wladimir Miranda, aposta em cartazes de rua, filmes e ensaios fotográficos para denunciar maus-tratos e reposicionar o jumento como ícone histórico, cultural e afetivo do Nordeste.

Imagem acima, cartaz de rua da campanha

Os jumentos estão entre os animais mais presentes na formação social e econômica do sertão nordestino. Por décadas — e em muitos casos, por séculos — foram eles que ajudaram a transportar água, alimentos, cargas e pessoas em longas travessias, tornando-se parte da vida cotidiana e da paisagem humana do interior. Ainda assim, muitos desses animais acabaram relegados ao abandono, aos maus-tratos e ao esquecimento.

É a partir dessa contradição que nasce a campanha em torno do Lar dos Pancinhas, ONG liderada por Erica De Caria, que acolhe mais de 84 jumentos resgatados de situações de rua, violência e exploração, em uma área próxima a Aquiraz, no Ceará. Mais do que uma ação de apoio à ONG, o projeto se estruturou como uma proposta de comunicação com forte apelo simbólico: lembrar ao público que o jumento não é apenas um animal de carga, mas um personagem central da história do sertão — e, em certa medida, da própria cultura brasileira.

A campanha ganhou forma a partir da união entre o Hub Criativo Sala nas Nuvens, liderado por Evandro Lima, o fotógrafo Roberto Kennedy, o diretor de arte Bill Queiroga e Wladimir Miranda, responsável pela montagem e finalização dos filmes. O grupo desenvolveu uma série de peças visuais, cartazes de rua, registros fotográficos e conteúdos audiovisuais com o objetivo de tirar o jumento do lugar de invisibilidade e colocá-lo no centro da narrativa.

Vídeo frame da campanha

O cartaz veio primeiro e inspirou toda a campanha

Um dos pontos centrais do projeto está justamente na criação das peças de rua. Os cartazes em formato lambe-lambe, com imagens dos próprios jumentos resgatados e frases de impacto, serviram como embrião conceitual da campanha. A proposta foi usar a linguagem urbana e direta dos cartazes para denunciar o sofrimento acumulado por esses animais ao longo da vida e, ao mesmo tempo, despertar empatia.

A partir desse primeiro gesto visual, vieram os demais desdobramentos: vídeos, filmes e fotografias pensados para ampliar a mensagem e transformar a causa em uma narrativa mais sensível, forte e memorável. Em vez de uma campanha focada apenas em pedidos de ajuda, a equipe optou por uma abordagem que recupera a trajetória histórica do jumento e evidencia o quanto esse animal serviu à sociedade antes de ser descartado por ela.

Filmes e imagens para contar uma história secular

Nos filmes e nas peças visuais, o jumento aparece não apenas como vítima de abandono, mas como símbolo de resistência, memória e serviço. A campanha procura mostrar que existe uma dívida histórica com esses animais, sobretudo no Nordeste, onde seu papel foi decisivo para a mobilidade e a sobrevivência de inúmeras comunidades.

Na construção estética do projeto, a fotografia teve papel decisivo. A ideia foi retratar os jumentos com uma linguagem mais elaborada, próxima à de retratos de estúdio, valorizando perfis, expressões e olhares. O resultado rompe com a visão automática e utilitária normalmente associada a esses animais e convida o público a enxergá-los como seres singulares, marcados por experiências de sofrimento, mas também por dignidade.

Foto, Evandro Lima e Roberto Kennedy

O jumento na tradição cristã

A campanha também dialoga com a dimensão simbólica do jumento na tradição religiosa. Nos relatos bíblicos, Jesus de Nazaré entra em Jerusalém montado em um jumento, em uma cena associada à humildade, à paz e ao cumprimento da profecia anunciada pelo profeta Zacarias: “Eis que o teu rei vem a ti, justo e salvador, humilde, montado em um jumento”

Essa referência ajuda a ampliar o significado da campanha. O animal que hoje aparece tantas vezes associado ao abandono foi, em diferentes momentos da história, carregado de valor espiritual, cultural e humano. Ao recuperar esse imaginário, o projeto reforça que proteger o jumento também é preservar um patrimônio simbólico do sertão.

Parceria entre acolhimento e comunicação

Embora o trabalho cotidiano de cuidado esteja no Lar dos Pancinhas, a força da campanha está justamente no encontro entre acolhimento e comunicação. De um lado, a ONG segue garantindo abrigo, alimentação e atenção a dezenas de jumentos resgatados. De outro, a equipe criativa transforma essa realidade em imagens e narrativas capazes de alcançar mais pessoas.

Vídeo frame da campanha

Na foto Erica De Caria, fundadora e responsável da ONG ¨Lar dos Pancinhas

O esforço conjunto busca ampliar a rede de apoio por meio de redes sociais, rifas, contribuições mensais, materiais de rua e conteúdos audiovisuais. A intenção não é apenas arrecadar, mas também conscientizar: lembrar que esses animais foram fundamentais para gerações inteiras e que agora precisam de proteção, descanso e reconhecimento.

Em um ambiente de informação rápida e causas que disputam espaço o tempo todo, a campanha do Lar dos Pancinhas consegue ir além do apelo imediato. Ao transformar cartazes, filmes e retratos em instrumentos de memória, o projeto recoloca o jumento no lugar que a história lhe reservou: o de um companheiro silencioso do sertão, cuja trajetória não pode terminar no abandono. (Na foto Erica De Caria, fundadora e responsável da ONG ¨Lar dos Pancinhas¨) Mais do que divulgar uma causa, a iniciativa constrói um gesto de reparação. E lembra que resgatar esses animais é, também, resgatar parte da identidade nordestina.

Contatos:

– Evandro Lima / Sala nas Nuvens: @evandro_salanasnuvens

– Roberto Kennedy: @robertokennedym

– Lar dos Pancinhas: @lardospancinhas

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